O Distúrbio Alimentar Pediátrico (DAP) ainda é pouco conhecido, mas afeta profundamente o direito de muitas crianças a uma alimentação segura, prazerosa e digna.

Por Maria Fernanda Cestari
Fonoaudióloga (CRFa 2-19414), atua com foco em alimentação infantil e é autora de materiais educativos sobre seletividade alimentar, DAP e TEA. Professora em cursos de formação profissional e palestrante em eventos nacionais.

“Ela não come nada.”
“Ele só aceita três alimentos e se recusa a experimentar qualquer outro.”
“Na hora da refeição, a casa vira um campo de batalha.”
Se você convive com crianças pequenas, talvez já tenha escutado frases assim — ou vivido isso de perto. Mas o que pouca gente sabe é que, por trás de comportamentos alimentares extremos, pode existir uma condição clínica chamada Distúrbio Alimentar Pediátrico (DAP).

A invisibilidade tem um custo alto: sofrimento, atrasos no desenvolvimento e famílias que se culpam ou se desgastam emocionalmente todos os dias ao redor da mesa.

O direito à alimentação está previsto na Constituição e em tratados internacionais. Mas o DAP nos obriga a repensar esse direito em sua totalidade. Não basta oferecer comida. A criança precisa ter condições reais de comer: segurança, prazer, vínculo, saúde.
Crianças com DAP enfrentam dificuldades persistentes para se alimentar — recusam alimentos, engasgam, vomitam ou entram em crise diante de um novo ingrediente. Às vezes, aceitam apenas uma textura, um tipo de preparo ou um único alimento.
É comum que adultos confundam com manha, birra ou seletividade passageira. Mas o DAP é um distúrbio com base orgânica, motora, sensorial, nutricional e/ou emocional. E o mais importante: pode afetar qualquer criança, inclusive aquelas com desenvolvimento típico.
A mesa não pode ser um lugar de medo
Quando a hora da refeição se transforma em ansiedade, culpa ou embate diário, algo precisa mudar.
Nenhuma criança deve ser forçada a comer com prêmios ou castigos. Nenhuma família deveria enfrentar esse desafio sozinha.
É preciso garantir acesso ao diagnóstico precoce, a profissionais capacitados e a abordagens respeitosas, que considerem o ritmo e o histórico de cada criança.
Falar sobre o DAP é, também, falar sobre o direito de cada criança a crescer com dignidade, vínculo e segurança alimentar real — não apenas em calorias, mas em afeto, autonomia e cuidado.

Sobre a autora:

Maria Fernanda Cestari de Cesar, formada em Fonoaudiologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) em 2014, aprofundou seus conhecimentos ao obter um mestrado em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem pela mesma instituição em 2017. Em 2018, ela especializou-se em Fonoaudiologia Hospitalar no prestigiado Hospital Israelita Albert Einstein.

Aprofundando seu expertise internacionalmente, Maria Fernanda participou de cursos sobre seletividade alimentar infantil ministrados por renomadas especialistas da área, como Suzanne Morris, Marsha Dunn Klein, Kay Toomey e Holly Bridges. Além disso, enriqueceu sua formação com cursos focados em autismo e seletividade alimentar, respaldados por profissionais e plataformas de destaque no cenário acadêmico.

Em 2022, sua competência no tratamento de dificuldades alimentares foi reconhecida com a certificação pela Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia. Sua prática clínica é voltada ao atendimento de crianças e pré-adolescentes, tanto típicos quanto atípicos, enfrentando desafios alimentares.

Como autora, Maria Fernanda contribuiu para a literatura infantil com os livros ‘Francisco não gosta de comer?’ e ‘Miguel e o espectro de oportunidades alimentares’, além de desenvolver o jogo educativo ‘Alimentando Conversas’.

Ela também compartilha sua expertise como docente na pós-graduação do Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein, no curso voltado ao Transtorno do Espectro do Autismo sob uma abordagem multiprofissional.

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